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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A Procissão do Imperador Perpétuo

Na década de 1830, surgiram notícias específicas sobre a Festa do Divino em São João del-Rei no jornal O Astro de Minas, focalizando uma procissão que se tornou famosa. Saía da Igreja de São Francisco de Assis e vinha até a de Matosinhos, passando pelo Matola (atual Rua Padre Sacramento). Este é o caminho antiquíssimo que dava acesso ao bairro e ao Porto (não havia ainda a Rua Antônio Rocha, que só foi aberta após a construção da estação ferroviária). Na procissão a imagem de Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa) era trazida dentro de uma liteira enfeitada. O santo é o imperador perpétuo da festa. A edição nº 119, de 20/05/1834 do citado jornal diz:

Os mesários do Divino Espírito Santo, anunciam que a posse é no dia 1º de junho do corrente ano às três horas da tarde, e que pretendem levar Santo Antônio da Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, para Matosinhos, com a decência possível como é de costume; para isso rogam a todas aquelas pessoas, que se quiserem aprontar de cavalo para acompanhar, o façam àquela hora impreterivelmente.

Trindade (1952) narrou um fato curioso, no qual um vigário de São João del-Rei, idealizou acabar com essa procissão [1]:

Comerciantes e festeiros do Divino, em São João del-Rei, elegeram Santo Antônio por Imperador Perpétuo de sua festa. Por isto faziam transportar, no início da novena, a imagem do santo imperador de São João para Matosinhos onde a festa se fazia. Ia o santo numa liteira ricamente adornada, amparado por um sacerdote revestido por estola e pluvial, seguido de pomposo acompanhamento. Certo vigário quis acabar com o piedoso costume e fez reclamações ao bispo. Este com habilidade, para não susceptibilizar o seu escrupuloso cooperador, conta o que se fazia em Portugal com as imagens da Senhora de Nazaré e da Arrábida, conduzidas também por ocasião de suas festas em luxuosas carruagens e em distâncias mais consideráveis. Era até a Família Real muitas vezes juiz destas festas. “Recentemente (continua) não há dois anos, o mesmo nosso augusto soberano o fez praticar no Rio de Janeiro, fazendo conduzir do mesmo modo a imagem da Senhora da Penha para a sua capela, na distância de duas ou três léguas da cidade e regressaram do mesmo modo... À vista de tudo isto não fique V.R. com o menor escrúpulo.” E Dom Frei José acaba louvando a piedade do povo e aprovando francamente a pitoresca cerimônia.

O historiador Cintra (1974-5) localizou outra notícia desse período:

Lemos no “Astro de Minas”, 1º jornal de S.João del-Rei, edição de 10 de junho de 1837, que a 13 do mesmo mês e ano sairia da Igreja de S.Francisco para Matozinhos a imagem de Santo Antônio, numa procissão patrocinada pelo Imperador e Festeiros do Divino Espírito Santo. Santo Antônio havia sido eleito Imperador Perpétuo da Festa.

Na frente da procissão ia como abre-alas um cavaleiro em animal ataviado. Portava um estandarte com a pintura do Espírito Santo. Por muitos anos esse cargo foi exercido pelo sr. Luciano Bonaparte, que ficou assim registrado por uma crônica localizada pelo pesquisador Adão (2001)[2]:

caboclo reforçado, de proporções hercúleas, mal encarado, sempre vestido de modo extravagante. Vinha todos os dias à cidade, montado num ginete bem ensaiado e trazendo aos pés um par de chilenas de prata. Dizia-se que era filho único de pai abastado e, que, com a morte deste, tornou-se herdeiro a ½ légua de S. João del-Rei, de vinte e tantos escravos. Mas era mal homem, cita o cronista que escreve no “Arauto de Minas”, em 1878, sob o pseudônimo de “Macedônio”. Pior ainda, como senhor de escravos. Acabou por matá-los um a um pela má e porca alimentação, muito serviço e bárbaros castigos. Contudo o maior prazer de Luciano era ir como alferes porta-bandeiras na procissão de São Jorge, para o que reservava sempre o seu melhor cavalo. A molecada sempre o acompanhava aos aplausos e Luciano voltava para casa cheio de si, depois de ter percorrido as principais ruas da povoação. Luciano Bonaparte fardava-se ricamente, calçava botas de Napoleão e cingia reluzente espada de alto preço. Montava, então, corpulento e fogoso animal, ajaezado de prata e ornado de fitas de várias cores. Carregava com garbo, da igreja de São Francisco até Matosinhos, uma vistosa bandeira, abrindo caminho para a triunfal procissão de Santo Antônio. Grande multidão acompanhava o andor do Santo. Todo mundo elogiava o esplendor da montaria e das vestes de Luciano, que se transformava numa das importantes figuras da solenidade.

Procissão do Imperador Perpétuo. Desenho: Osni Paiva.

Referências

ADÃO, Kleber do Sacramento. Devoções e diversões em São João del-Rei: um estudo da festa do Bom Jesus de Matosinhos, 1889-1924. Campinas: UNICAMP – Faculdade de Educação Física, 2001. Tese de Doutorado.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Festas de Matozinhos antigamente. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v. 2, 1974-5, p. 8.

TRINDADE, Raymundo, Cônego. Arquidiocese de Mariana: subsídios para a sua história. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1952. v. 1. p. 189-190.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli. 
- Desenho: Osni Geraldo de Paiva. 

Notas

- Revisão: 24/07/2025. 



[1] - O fato narrado tem data desconhecida. Está compreendido porém obrigatoriamente no intervalo de 25/03/1820 e 20/09/1835, que corresponde ao arquiepiscopado de Dom José da Santíssima Trindade, em Mariana/MG, frei franciscano envolvido no caso relatado. Este arcebispo era português, natural do Porto, nascido a 13/08/1762. Faleceu em Mariana, a 28/09/1835.
[2] - Extraído do jornal são-joanense Arauto de Minas, n. 17, de 14/07/1878. Macedônio, que o assina, é pseudônimo de Dominiciano Leite Ribeiro, o Visconde de Araxá. Figurão político, tinha sido governador de São Paulo trinta anos antes. 

Outros comentários sobre a Procissão do Imperador Perpétuo


O Astro de Minas foi o primeiro jornal da cidade de São João del-Rei/MG e o segundo mineiro. Suas páginas referenciam a Procissão do Imperador Perpétuo, Santo Antônio de Pádua, assim nomeado pelos comerciantes locais, contrapondo-se ao imperador móvel, humano, que perde seu cargo a cada Pentecostes, dando lugar a outro. Era um cortejo religioso popular, concorrido e pomposo, descendo desde a Igreja de São Francisco de Assis até a do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, pelo antigo e longo caminho, provocando grande entusiasmo na sua chegada, na véspera de Pentecostes.

Interessante seu cortejo numa liteira, veículo de transporte dos ricos fazendeiros e comerciantes, que em suma eram importantes agentes promotores da festa. A liteira conferia ao próprio santo um ar senhorial, bastante adequado para um festejo aristocrático, promovido sem dúvidas pela classe dominante. E se a crônica relata que os comerciantes contribuíram na escolha desse santo, não deixa de ser intrigante nomearem justo ele, que não é padroeiro dos comerciantes, mas dos militares e das moças casadouras. Santa Lídia é a padroeira dos comerciantes, mas não goza de um milésimo da popularidade de Santo Antônio.

Não se sabe ao certo por qual razão Santo Antônio foi escolhido Imperador Perpétuo. Tudo fica no campo hipotético. Sua altíssima popularidade mesmo antes de falecer e a sua capacidade oratória extraordinária, devem ter contribuído para a escolha. A grande eloquência catequética, sempre foi considerada inspiração divinal. Essa capacidade do santo lhe valeu o título de “Martelo dos Hereges” (pois em seus sermões combatia firmemente os pecadores) e “Tuba Evangélica” (pela veemência com que pregava a palavra santa).

E um fato em especial pode ter motivado a escolha. Na páscoa do ano 1227, narra o reverendíssimo Padre At, da Congregação do Sagrado Coração, de Toulouse (França)[1], aconteceu o seguinte fato extraordinário, na presença do Papa Gregório IX:

A maravilhosa nave do Espirito Santo, Sto Antonio de Padua, um dos discipulos e companheiros que S. Francisco havia escolhido, e o que elle chamava seu vigario, prégava uma vez perante o Papa e os cardeaes no consistorio, onde se achavam homens de diversas nações, gregos, latinos, francezes, allemães, slavos, inglezes, e de outros varios paizes. Elle foi inflammado pelo Espirito Santo e annunciou a palavra de Deus de um modo tão efficaz, tão devoto, tão penetrante, tão suave, tão claro e intelligente, que todos os presentes, conquanto fossem de linguas diversas, entenderam todas as suas palavras clara e distinctamente como se houvesse falado a lingua de cada um, e ficaram todos estupefactos. Pareceu ver-se renovar o antigo milagre dos Apostolos no tempo do Pentecostes, quando pela virtude do Espirito Santo falavam todas as linguas; e os cardeaes diziam uns para os outros: não veio da Hespanha este que préga? E como, pois entendemos todos na sua lingua a do nosso paiz? O Papa reflexionava como os outros, e, maravilhado pela profundeza desta prégação, exclamou: na verdade, este é a Arca do Testamento, e o thesouro da Santa Escriptura. (grifo nosso)

O acontecido sem dúvidas denota que o grau de santidade deste taumaturgo era também fruto de intensa efusão do Espírito Santo sobre ele.

Por outro lado houve um costume europeu muito antigo de se nomear santos para determinados cargos, hábito também adotado no Brasil. A esse respeito, LEAL (1994) lista entre as “censuras e leis” que afetaram as festas do Divino Espírito Santo no Arquipélago dos Açores, aquelas instituídas pelo bispo Dom João Maria Pimentel (1876), proibindo a saída de imagens nos cortejos, após constatar que “em algumas freguesias há o costume de nos bodos do Espírito Santo acompanharem imagens de santos o préstito, com o título de pajens da coroa (p. 273. Grifei). Santo Antônio por sua popularidade inigualável foi especialmente farto nesse sentido. Como exemplo, em 1767, ganhou o posto de coronel das tropas da capitania de São Paulo [2]. CASCUDO (s/d) lista uma série de títulos que este santo ganhou no Brasil:

justificando-se sua intervenção quando de lutas armadas, na Bahia, Santo Antônio foi capitão na Fortaleza da Barra, em 1705, alferes no bairro da Mouraria em 1800, com 120$ anuais, sargento-mor em 1810 e tenente-coronel em 1814, com o soldo anual de 720$, pago até 1907. Em São Paulo foi coronel. Capitão em Goiás. Soldado na Paraíba e Espírito Santo. Tenente-coronel no Rio de Janeiro em 1814. Capitão de cavalaria em Vila Rica (Ouro Preto, Minas Gerais). Tenente no Recife, com 34$400 anuais. Vereador em Igaraçu, Pernambuco. Grão-cruz da Ordem de Cristo  em 1814, dada pelo príncipe regente Dom João.

E porque não Imperador Perpétuo em São João del-Rei? ...

A função de imperador é sempre anual. O título de imperador é móvel, como se diz. Já sua perpetuidade  é singular, exceção feita ao caso de Santo Antônio, que até prova em contrário, é único, no Brasil e em Portugal, insular ou continental.

Junto com a coroação do imperador, a procissão é o evento da programação que mais evoca a festa antiga. Outrora ocorria no dia em que começava a novena, trazendo a imagem do santo para participar das rezas em Matosinhos. Fazia-se acompanhar a cavalo, tendo à frente de todos um cavaleiro, portando o estandarte do Divino, ricamente trajado e o cavalo enfeitado. Por muitos anos o cavaleiro foi o sr. Luciano Bonaparte, que tinha uma chácara no bairro Bonfim. 

Seria de fato exótico ou no mínimo estranho e incomum uma imagem rua afora, dentro de uma liteira, acompanhada por cavaleiros, por tão grande distância. Um vigário de antanho tentou acabar com o préstito, escrevendo ao bispo da época, mas não conseguiu o intento. Estranhava o aspecto processional.

Com os olhos atuais é possível compreendê-la melhor. Santo Antônio foi nomeado imperador, com honras perpetuadas pelos comerciantes. Ora, São João del-Rei sabidamente viveu mais intensamente do comércio desde que a febre do ouro acabou. Tornou-se um grande entreposto comercial, verdadeiro empório mineiro no século XIX, estabelecendo rotas comerciais com o Rio de Janeiro, com a capital da província (Vila Rica, hoje Ouro Preto), com o sertão (oeste de Minas Gerais) e toda circunvizinhança enfim. Os comerciantes eram ricos e respeitados, influentes na sociedade, cuja economia era sobretudo por eles movimentada. Esses potentados e suas madames, que passeavam pelas ruas em liteiras (carregadas nos ombros dos escravos ou presas às arreatas de parelhas de cavalgaduras), serpentinas, cadeirinhas de arruar, coches, seges, ao escolherem o dito santo como imperador, automaticamente passaram a tê-lo como seu representante na estrutura festiva e assim seria natural que ele se apresentasse no evento com tal importância para a sociedade local, no conforto de uma liteira, tal como o abastado senhorio que o elegera e que em última análise patrocinava a festança. Fica claro portanto o lado aristocrático desse préstito processional, no contexto histórico festivo.

Mas rapidamente o costume desapareceu. Não se sabe a razão. Faltam dados. De todas notícias coligidas nos jornais a partir da década de 1870, nenhuma em absoluto cita qualquer menção a essa procissão, por mais vaga que fosse. Seria inadmissível que passasse despercebida da imprensa da época, tal seu valor social e religioso, pois o Arauto de Minas, O Repórter, A Nota, O Combate e outros mais, detalhavam as atrações atenciosamente. A procissão do Imperador Perpétuo estava mesmo desaparecida.

Apesar de hoje a comissão primar pelo cunho religioso desse evento há quem o encare como alegórico o que não corresponde à realidade bem fundamentada. É com certeza uma procissão colorida, vivaz, que se destaca daquelas outras mais contemplativas, senão mesmo tristonhas, mas definitivamente, não é um mero desfile. Em razão dessa observação, parece estar a pouca frequência de representantes dos sodalícios religiosos da cidade, apesar da abundância de convites. Exceção feita de modo especial à Irmandade do Santíssimo Sacramento de Matosinhos, Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis e Venerável e Episcopal Confraria de São Gonçalo Garcia. As demais, não todas, eventualmente mandam alguns representantes mas as três citadas tem participação ativa. Ao contrário, na procissão do Divino, efetuada no dia seguinte, o comparecimento dos sodalícios é bem maior, embora não ainda ideal. 

No que pese todo o esforço de divulgação empreendido pelos festeiros, por todas as vias possíveis, esta procissão ainda não alcançou a popularidade pretendida e que ela decerto merece. Apesar de bem estruturada e com atrativos suficientes, tem sido pequena a participação de fiéis neste evento. Poder-se-ia atribuir esta constatação aos seguintes fatores:

-          itinerário muito extenso (cerca de 3 km), demorado para ser transposto e com subida;
-       longo período sem ser realizada, criando uma lacuna na tradição de se participar dela, que só o tempo poderá fechar;
-          a supra-referida concepção (equivocada) de que ela tenha pouco aspecto religioso;
-          o fato de ser uma procissão secundária ou coadjuvante dentro da festa (a principal é a do Divino);
-          incompreensão – apesar dos constantes esclarecimentos prestados – da razão de existir uma procissão em honra a Santo Antônio, dentro de uma festa consagrada ao Espírito Santo;
-          o fato de ter saída no período diurno, já que a grande maioria das numerosas procissões desta cidade é noturna. Muito embora chegue em Matosinhos já com a noite. 

A chegada a Matosinhos é eufórica, embora a procissão nunca tenha conseguido reunir grande número de fiéis. As paradas que se faziam na Gruta e na Santa Clara estão abolidas desde 2002, por perturbarem a ordem do itinerário e o delongarem demais. Sem paradas, consumiu 1 h e 35 em 2003 para honrar o trajeto.

Procissão do Imperador Perpétuo ganha a Rua Bernardo Guimarães.
As Folias do Divino garantem a parte musical alternadamente em todo o trajeto.

Referências

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

LEAL, João. As Festas do Espírito Santo nos Açores: um estudo de Antropologia Social. Lisboa: Dom Quixote, 1994. Col. Portugal de Perto, n. 29. 319 p. 


Créditos


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 27/05/2012.

Notas

- Revisão: 27/09/2025. 



[1] - AT, (Padre). História de Santo Antonio de Padua: segundo as fontes agiographicas dos seculos XIII, XIV e XV. Tradução Mons. Dr. José Basilio Pereira. Salvador: São Francisco, 1913. 419 p. p. 169.
[2] - REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL DE SÃO PAULO, v. 2, p. 91-2, 1934.