terça-feira, 30 de julho de 2013

As Festas de 1923

Não faz muito tempo este blog noticiou o nome da Imperatriz do Divino do ano de 1927, a esposa do ilustre Basílio de Magalhães, sra. Flávia Ribeiro de Magalhães. Prosseguindo as pesquisas, agora do ano de 1923, este post traz a lume os nomes do Imperador Antônio Balbino de Souza e da Imperatriz Antônia de Araújo Simões.


Em 1923, às vésperas da proibição ou remodelação imposta pelo processo de romanização da Igreja, os célebres festejos do grande bairro de São João del-Rei eram organizados por uma extensa comissão de festeiros, dividida em três grupos, um para cada dia de festa. O primeiro dia, Domingo de Pentecostes, dedicado ao Espírito Santo, era o com maior número de cargos, incluindo além do casal imperial, três caudatários (pajens da imperatriz), três pajens do estoque (vassalos do imperador), três alferes da bandeira (dentre os quais Samuel Soares de Almeida), vários mordomos e irmãos de mesa. 


Os outros dois dias, segunda e terça-feira, consagrados respectivamente ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos e a Nossa Senhora da Lapa (que o jornal pesquisado cita apenas como N.S. da Conceição), tinham cargos relevantes na figura dos juízes (as):

- Manuel da Cunha Lima (Bom Jesus)
- Carmen Mello (Bom Jesus)
- Amarante Araújo (Nossa Senhora)
- Anna Lopes de Oliveira Alves (Nossa Senhora)

Além do juizado um grande número de irmãos de mesa foi listado para cada dia. A lista de nomes se completa com três cargos importantes, servindo a todos os dias festivos: 

- Tesoureiros: André Bello / Irineu Cantelmo
- Secretários: João Francisco Nogueira / João Evangelista Pequeno
- Procuradores: Teophilo Rodrigues (1º dia) / Joaquim Rodarte (2º dia) / Eduardo Cancio Rodrigues dos Santos (3º dia)

Os procuradores tinham um papel especial na administração dos festejos, semelhante ao do atual presidente da comissão de festa. 

Mais uma vez, a listagem revela ainda nessa época, nomes importantes da sociedade são-joanense envolvidos com o evento, tais como o célebre fotógrafo André Bello, os maestros João Pequeno (que nomina uma rua do centro histórico desde 1949, o antigo Beco da Romeira) e Teophilo Rodrigues (notável regente da Banda Teodoro de Faria, por longos anos), dentre outros. 

Por estas alturas, os planos de mudanças para a festa já andavam à plena, pois uma notícia, da mesma época, revela a intensão de formar em Matosinhos um jubileu da Santa Cruz, pela passagem da data do 03 de maio, que converteria a formatação dos festejos para os moldes da festa de Congonhas, com a presença do próprio arcebispo, Dom Helvécio Gomes de Oliveira. 


No ano anterior já havia acontecido em setembro um jubileu dedicado ao Sr. Bom  Jesus de Matosinhos, o primeiro até aqui noticiado nesta data, anterior ao que imaginávamos como inicial (nos princípios dos anos 50). Notícia muito interessante, de leitura custosa, revela que, antecedido por uma novena, no dia principal, o Padre A.C.Rodrigues fez enérgico sermão enaltecendo os valores da cruz aos fiéis. Missa, concorrida procissão do Santíssimo Sacramento e sua bênção respectiva, te-deum e um destaque para o grande número de comunhões, mostram a nova diretriz festiva já esboçada e de linha bem evidente e firme. Mais uma vez, há a promessa de fazer para 1923 um jubileu "igual ao de Congonhas do Campo", segundo intensão do festeiro, Coronel J.Severiano da Silva, o que é muito sintomático. 


As diretrizes novas para os festejos de Matosinhos já estavam semeadas e em vias de implantação. A romanização estava a todo vapor. A supressão da festa em 1924 foi uma atitude drástica e marcante para deixar bem claro à comunidade a nova ordem de comemorações. 

Referências Bibliográficas 

- GAIO SOBRINHO, Antônio. Bandas Musicais em São João del-Rei e a Banda Teodoro de Faria. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.10, 2002.
- GUIMARÃES, Fábio Nelson. Ruas de São João del-Rei. São João del-Rei: FAPEC, 1994. 

Referências Hemerográficas

- Jornais antigos do acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei: 
   - A Tribuna, n.464, 18/03/1923
   - A Tribuna, n.468, 15/04/1923
   - Acção Social, n.858, 21/09/1922

Créditos

- Texto, pesquisa e foto-montagens: Ulisses Passarelli. 

Notas 

- Jornais antigos do acervo da Biblioteca Pública Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei, disponíveis em seu site
- Revisão em: 05/06/2025 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O Auto-omnibus

O trem foi durante muito tempo o principal veículo de transporte urbano entre São João del-Rei e Matosinhos, o que já foi demonstrado em algumas postagens deste blog. Chagas Dória ainda está lá para comprovar, fantasmagórica estação morta. 

Havia é certo a "Estrada da Tabatinga", o caminho antigo, que vindo do Matola, atravessava o Córrego da Tabatinga (palavra de origem indígena, usada para denominar uma argila clara, "barro branco"), que desce da Caieira (hoje Bairro São Judas Tadeu), seguia para Matosinhos entre o Córrego do Lenheiro à esquerda, e a via férrea à direita. Esta estrada, outrora desprovida de casas ao redor, era o "caminho da roça", a estradinha do arraial de Matosinhos, com pouco trânsito, senão o de carroças, charretes, carros de boi, tropas, cavaleiros e alguém à pé. Com entrada pela Rua Bernardo Guimarães, passava diante da igrejinha demolida em 1970 e fletindo à esquerda, rumava para a Ponte do Porto. 

É o caminho velhíssimo trilhado pelos bandeirantes alucinados pelas riquezas minerais. Hoje asfaltado e cheio de casas no entorno é nada mais que uma rua comum, perdida entre tantas da urbe, com sua história calcada sobre calçados e pneus. 

Há noventa anos uma novidade surgia em São João del-Rei: a linha de ônibus, ou melhor "auto-omnibus", como se dizia na época. O primeiro era como um circular, que no começo de 1923 fazia um giro pelo Centro Histórico, Tijuco, Fábricas e Matosinhos (onde a passagem era de 200 réis). A Tribuna foi um jornal da cidade que registrou para a posteridade este pedaço da história que ao olhar atual se colore de aspecto pitoresco.  


No mesmo ano, pouco depois um segundo veículo da mesma empresa começou a reforçar a linha urbana, comprovando assim que houve demanda de passageiros. Ele sofreu um acidente que danificou a carroceria e quando da sua reforma foi noticiado pelo mesmo jornal que serviria à linha de Matosinhos


Segundo notícias orais os primeiros veículos eram "jardineiras", calhambeques com carroceria coberta, mas vazada nas laterais, contendo bancos de madeira onde iam os passageiros. Mais tarde foram substituídos por outros totalmente fechados, que aqui foram apelidados de "grisú". 

Créditos
Texto e fotomontagem: Ulisses Passarelli.
Acervo hemerográfico: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG. 

Notas

Revisão: 03/04/2025. 

domingo, 14 de julho de 2013

Uma grande festa

Em continuidade às pesquisas jornalísticas sobre o Bairro Matosinhos, em São João del-Rei/MG, e em especial sobre seus festejos religiosos, para esta postagem foram selecionados dois recortes extraídos do acervo (digital) da Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida, desta cidade. No que pese a qualidade da fotodigitalização disponibilizada do acervo hemerográfico deixar a desejar, especificamente no caso desses recortes de jornal foi possível proceder a transcrição, que segue: 


Transcrição: "Festa de Matosinhos. Foi eleita imperatriz da festa do Espírito Santo, a realizar-se brevemente no nosso pitoresco arrabalde de Matosinhos, a exma. sra. d. Flávia Ribeiro de Magalhães, consorte do deputado Basílio de Magalhães, representante do 4º districto mineiro e presidente da Camara Municipal de S.João del Rey." 

Fonte: A Tribuna, São João del-Rei, nº 846, 24/04/1927. 

Comentários: esta notícia é mais uma prova concreta que a festa não paralisou totalmente em 1924, mas sim, mudou drasticamente de rumos ou diretrizes. Três anos depois da paralisação a esposa do gênio intelectual Basílio de Magalhães se tornou imperatriz. Basílio era um dos diretores d'A Tribuna, historiador e figura destacada na política local. Eis a dimensão de importância da Festa do Divino nessa época. 



Transcrição: "Acha-se nesta cidade em propaganda da cerveja "Rhenaaia" de Bello Horizonte, o Snr. Ovidio Corrêa. Este senhor, para fins de propaganda da excellente bebida, installou em Mattosinhos uma barraca, onde tem obsequiado os freguezes com aquella ... [fina? Ilegível.] cerveja." 

Fonte: A Nota, nº 22, 28/05/1917.

Comentários: para divulgação de uma marca comercial o representante escolheu a festa de Matosinhos, coincidente com o período de sua vinda, para difundir seu produto. A popularidade e movimento da festa assim o permitiam, o que denota seu alcance regional.

Créditos

Texto e fotomontagens: Ulisses Passarelli.

Notas

Revisão: 14/04/2025. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

São Libório


Libório é um nome de origem latina, de caráter gentílico, significando 'natural da região de Libora'. Há dúvidas sobre a localização exata da primitiva Libora, possivelmente na Península Ibérica. Porém é apontado como santo francês, Bispo de Le Mans (Departamento de Sarthe). O dia de sua festa era 23 de julho e mais tarde foi alterada para 9 de abril. O Papa João Paulo II instituiu o título cardinalício "São Libório", em 21 de fevereiro de 2001. (Fontes da web, mencionadas nas referências). 

Conta-se como muito milagroso. Suas primeiras intercessões teriam acontecido logo após a sua morte, no ano 400, com o corpo ainda presente. Teria realizado profecias e tido grande desprendimento dos bens materiais. É invocado contra todos os males urinários, problemas de bexiga, cálculo renal, cólicas de rins (SOBRINHO, 1997, p.52). 

Em São João del-Rei/MG, é representado por uma imagem de roca do século XIX, de braços articulados, busto como peça independe, encaixada à base por armação de réguas; pés esculpidos em forma de dois sapatos avulsos, sobrepostos à base. A solução da composição, típica da estrutura dita 'de roca' mostra-se de grande praticidade e leveza, sendo imperceptível sobre a vestimenta de tecido que reveste a imagem. É de autoria do artista sacro são-joanense, Joaquim Francisco de Assis Pereira. É mantida em veneração no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Apresenta-se vestida com trajes episcopais. Esta imagem foi patrimonializada pelo município por mecanismo de Inventário de Patrimônio Cultural (SÃO JOÃO DEL-REI, 2020). Além de Matosinhos, também possui uma imagem na Igreja do Rosário, no Centro da cidade.

A oração de São Libório diz: 

"(Sinal da Cruz) Bem aventurado São Libório, rogo-vos a vossa intercessão junto ao Onipotente para que este vosso contrito devoto não seja atormentado dos males de bexiga, cálculos, areia, frouxidão ou retenção de urina. Senhor Deus, que Vos dignastes conceder ao Vosso bem aventurado São Libório o poder de curar os males de bexiga, nós Vos rogamos que pelos méritos do Vosso Santo o Vosso servo (citar o nome) se veja livre dos tormentos que o afligem. São Libório curai... (benzer o local doente) São Libório socorrei ... (benzer o local doente) São Libório protegei... (benzer o local doente) (Rezar 3 Pai Nosso à Santíssima Trindade. Sinal da Cruz." ) (LIVRO DA CRUZ DE CARAVACA DA CAPA PRETA, s/d)

O folclorista Gutenberg Costa recolheu uma oração dedicada a este santo para intercessão nas causas de saúde renal, corrente no Rio Grande do Norte: "Senhor, pelo especial privilégio outorgado ao beato Libório contra os males dos cálculos, das pedras e da urina, fazei que (nome do doente) se veja livre do mal de (dizer o nome da moléstia) de que padece. Glorioso São Libório, rogai por nós, amém!" (Rezar três Pai Nossos em honra da Santíssima Trindade). (COSTA, 2025, p.62). 


São Libório, imagem do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 
São João del-Rei/MG. 

Referências Bibliográficas

COSTA, Gutenberg. Rezadeiras do Rio Grande do Norte. Natal: Ed. IHGRN, 2025. 210p.il. 

Livro da Cruz de Caravaca da Capa Preta. 3.ed. Rio de Janeiro: Espiritualista, [s.d]. p. 131-132.  

SÃO JOÃO DEL-REI. Imagens Antigas de Matosinhos: Inventário de Patrimônio Cultural. São João del-Rei: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal, 2020. 54p.il. 

SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei, 1997. 153p.il. 

Referências na Web

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cuerva (acesso em 26/06/2013)
http://it.wikipedia.org/wiki/Liborio (acesso em 26/06/2013) 
(acesso em 16/12/2014)

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 2013. 
Notas

- Revisão: 07/04/2025. 
- Acréscimos: 01/10/2025. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

A Oeste de Minas e Matosinhos

Os antigos jornais de São João del-Rei do fim do século XIX e começo do seguinte estão repletos de notícias sobre a Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM). Como ela foi fundamental ao progresso e economia da região, nada mais natural que chamasse a atenção da imprensa da época e que fosse um elemento social importante.  Neste contexto tudo que envolvia a ferrovia era o centro das atenções.

Em Matosinhos não foi diferente. Sendo o mais próspero e querido subúrbio da cidade - querido literalmente! - a crescente evolução obrigou ao surgimento da estação própria, mas não sem polêmicas quanto à localização, como se deduz pelo fragmento jornalístico abaixo:


"(...) É assim natural que eu chame de trancendentaes as questões aqui em ordem do dia: a questão do modo de fazer a imprensa suas reclamações e o logar mais conveniente para a futura estação de Mattosinhos.(...) " (O Grypho, n.10, 24/11/1907)

A ferrovia tinha uma imensa demanda a cumprir. Além do movimento normal de passageiros e cargas, em outras ocasiões não cotidianas a sua administração era cobrada pela população, afoita por um apoio, a exemplo da atividade esportiva abaixo citada pelo hebdomadário: 


"Com a Oeste. No último domingo, com a realização do torneio irácio da A.S.E.A. no campo do Athletic, em Matosinhos, foi pedida á estação local uma composição especial para transporte dos que lá desejassem ir, mas isso foi negado... por falta de carros. Nós desejavamos saber onde foram parar os carros só para informar, é claro." (Folha Nova, n.10, 08/05/1932)

E nas atividades festivas tinha a empresa de se desdobrar. Nas pesquisas hemerográficas um grande número de referências se fazem claras e irrefutáveis, no sentido de provar o formidável movimento de composições ferroviárias entre a cidade e Matosinhos, como pode ser lido neste blog (ver o post Transcrições hemerográficas). Em 1917 o expressivo número de 154 trens (ver o post EFOM: algumas glórias do passado) foi registrado para as festas anuais de Pentecostes e da excelência do serviço prestado a nota jornalística abaixo nos dá conta: 


"A Oeste brilhou. O serviço de trens durante os festejos de Mattosinhos esteve irreprehensível. Não houve um desastre, um inconveniente, uma reclamação só, que viesse turvar a boa marcha do serviço que foi delineado por mão de quem conhece, a valer, o "metier" do movimento. Ao sr. Pinto da Silva, inspector do Movimento é que o povo deve irreprehensível serviço de trens, durante os dias de festa em Mattosinhos. Cabe também ao Movimento, repartição affecta ao Trafego, as nossas felicitações. Ao sr. Carlos Senna, inspector do 1º Districto que também eficazmente collaborou no serviço de trens, aos srs. conductores, emfim, ao Trafego, apresentamos nossas felicitações pelo exemplar e correcto serviço." (A Nota, n.24, 30/05/1917). 

Porém, mais que tudo isto, denota a grande importância de Matosinhos para o contexto de São João del-Rei, o saber, pelo recorte seguinte, que o grande bairro foi alvo de um planejamento da EFOM, para a instalação de oficinas ferroviárias, chegando-se a adquirir para tanto o terreno antes pertencente à Escola de Laticínios


"As officinas em Mattosinhos. Cessou de vez a grande influencia para a construcção das officinas da Oeste em Mattosinhos, nos grandes terrenos da extincta E. de Laticinios. Foi adquirido o terreno, levantada a planta... e nada mais, tudo como d' antes. Neste interim a officina de Lavras, que demanda grande orçamento, tornou-se na realidade mais real que imaginar se possa. A E. Saboia, empreiteira das obras, alli trabalha activamente, já estando muito adeantadas as obras do edificio, que parece ser de grande vulto. E parece, e o será, muito breve, emquanto que nós... ficaremos a ver navios." (A Nota, n.25, 31/05/1917)

Estas notícias de outrora são reveladoras da importância do bairro-cidade para São João del-Rei e da ferrovia para o contexto da época. Simples notas como as acima selecionadas, pinçadas ao acaso na poeira do passado, nos revelam por fim que as pesquisas tem de continuar, qual a ferramenta de um arqueólogo, a nos revelar relíquias de antanho.

Créditos
- Fotomontagens e texto: Ulisses Passarelli.
- Acervo de jornais: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG. 

Notas

- Nas transcrições foi respeitada a grafia de época.
- Revisão: 08/04/2025. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Vilão da cidade de Perdões

Na fotografia e vídeo apresentados nesta postagem está em destaque o terno de vilão do município de Perdões, Mesorregião Oeste de Minas, Microrregião de Campo Belo, durante participação na Festa do Divino Espírito Santo de 2013, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei. Os terno de vilões são típicos da zona oeste do Estado.


  
Créditos

- Legendas: Ulisses Passarelli. 
- Foto e vídeo: Iago C.S. Passarelli, 19/05/2013. 

Notas

- Para saber mais sobre este tipo de congado ver a postagem: VILÃO, UM CONGADO DE CORTE  
- Revisão: 19/06/2025. 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Ritual de Coroação do Imperador


O ritual de coroação do novo Imperador do Divino transcorria de formas diferentes a cada ano, algumas vezes conforme idéias novas do escolhido. Em 2011 o então presidente da Comissão do Divino, Nelson Domingos de Abreu solicitou-me formatar o ritual e disto lhe entreguei o esboço abaixo, que prevê local exato para assento, entrada solene, ato de descoroação, coroação e aclamação. Foi-lhe dada total liberdade de descartar esta sugestão ou de adaptá-la como melhor conviesse. Com pequenas adaptações de ordem prática foi seguido desde então. Segue-se abaixo, conforme o original. 

*  *  *

1- Toda a orientação do ritual compete a um Mestre de Cerimônias, trajado de terno, ciente de cada detalhe e momento, sem interferência de outras pessoas e independente do Locutor Sacro, embora suas ações estejam sincronizadas.

2- Todos os imperadores se trajarão de terno completo (ex e atuais) e deverão ter um comportamento irrepreensível, mantendo a compostura, respeito e silêncio no Santuário.

3- Para a celebração os ex-imperadores entrarão em fila dupla, antecedendo os atuais.

4- Seguem os atuais, cercados pela Guarda de Honra.

5- Os imperadores atuais (coroado e eleito) tem assento junto ao altar, no lugar de costume, tendo à sua frente uma mesinha forrada de toalha e sobre ela será posta a salva. Também deve haver dois genuflexórios.

6- Ex-imperadores tem assento na primeira fila, no eixo principal da nave central, à direita de quem entra (lado contrário da orquestra).

7- Após os imperadores atuais se sentarem os ex-imperadores se sentarão também, seguidos da Guarda de Honra que assentará junto aos ex-imperadores.

8- No momento da Consagração o Imperador Coroado tira a coroa da cabeça e a põe sobre a salva. Ele e o Imperador Eleito ajoelham-se no genuflexório. Após a Consagração se levantam e permanecem de pé e então recoloca a coroa sobre a cabeça.

9- Na Ação de Graças o Imperador Eleito e o Coroado irão para a entrada principal do santuário. Os ex-imperadores formarão fila dupla diante do altar.

10- A entrada dos imperadores se dará em duas etapas:

-    primeiro: entra o Imperador Coroado, passa pelo abre-alas dos ex-imperadores e sobe ao altar. Cumprimenta o celebrante. Ele mesmo retira a coroa e a põe sobre a salva, que estará com o Mestre de Cerimônia. A seguir entrega-lhe o cetro, que será atravessado na coroa. O Mestre de Cerimônia põe as insígnias sobre a mesinha e volta para ajudá-lo a retirada da capa e por fim da faixa, pendendo-as no genuflexório.

-       A seguir entra o Imperador Eleito e vai até o altar. O Mestre de Cerimônia lhe põe a faixa e a seguir a capa. O novo Imperador ajoelha no genuflexório enquanto o celebrante asperge água benta sobre as insígnias e a seguir o coroa. Ao levantar-se recebe o cetro. A salva permanece sobre a mesinha. É cumprimentado pelo Padre e Mestre de Cerimônia.

11- Nesse momento todos os ex-imperadores voltam aos seus lugares e o novo imperador é apresentado à aclamação dos fiéis.


*  *  *

É de praxe ao término da bênção do padre todos os imperadores de anos anteriores virem saudar o novo, recém-coroado, bem como, familiares, parentes, amigos e até curiosos. É um momento especial, de grande fraternidade. Abaixo algumas fotos que revelam o momento que o Mestre de Cerimônias o reveste com a capa, o Bispo Diocesano o coroa e um imperador de ano anterior saúda com um abraço. 





Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S.Passarelli, 20/05/2013.  

                                                                                 Notas 

- Revisão: 21/04/2025. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Folia da Rua São João

                                       

Folia do Divino da Rua São João, Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG. 
Folião: Antônio Ventura. Procissão do Imperador Perpétuo, 
Festa do Divino, Paróquia do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, São João del-Rei. 

"Folieiro caminhando,
com o Divino Espírito Santo!"

Créditos

- Vídeo e legenda: Ulisses Passarelli, 18/05/2013.
- Edição: Iago C.S.Passarelli. 

Notas 

- Revisão: 17/06/2025. 


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Ceres... Que estátua é esta?

Chafariz de Matosinhos: incógnitas...


No centro da Praça de Matosinhos um belo monumento metálico oitocentista, jaz esquecido de maiores cuidados. É um chafariz que há muito tempo não jorra água, encimado por uma misteriosa estátua que recentemente tem suscitado discussões variadas, instigando os pesquisadores a reescrever sua história, calcada em novas pesquisas e reflexões.




Tradicionalmente é chamada “Deusa Ceres” em São João del-Rei/MG. Ora, em Valença/BA, há uma estátua-chafariz absolutamente idêntica, fundida na mesma fôrma, igualmente chamada Deusa Ceres.

Na mitologia romana, Ceres era a Deusa da Agricultura, filha de Saturno e Cibele. Simbolizava o amor maternal e dava força ao crescimento das plantas. Teve com seu irmão Júpiter, uma filha chamada Prosérpina, que esposando Plutão, foi parar no inferno. Uma das versões diz que no desespero, Ceres clamou a Júpiter pelo retorno da filha, mas sendo impossível só lhe foi concedido estar com ela durante uma quadra do ano, justo no inverno, quando então, Ceres recolhia seus poderes e os campos de cultivo descansavam, sem plantio e sem colheita.



         Alguns elementos históricos dessa estátua em São João del-Rei estão a merecer maior esclarecimento:

- qual a sua data exata: 1887 como se tem dito? Onde está a comprovação?
- foi mesmo a Câmara Municipal que a encomendou? Onde está o documento? Qual seu valor financeiro? Como chegou aqui?
- quais os detalhes de sua saída de Matosinhos e depois seu retorno?
- ela é mesmo representativa da deusa romana?

         Não faz muito, Antônio Gaio Sobrinho em artigo contrariou a origem direta de Turim, Itália, ao trazer a público a existência de uma pequena inscrição “Val d’Osne”, referente à famosa fundição francesa.


Com o trabalho de pesquisas sobre Matosinhos já pronto, recomeçaram as discussões sobre origem e identidade desta estátua. As pesquisas de Flávio Frigo e Francisco José de Rezende Frazão, muito contribuíram para as novas reflexões e considerações sobre este monumento. As novidades puxaram novas consultas à internet, ora apenas pinceladas, mas obrigando em futuro próximo a reescrever toda a história deste monumento. Fica consignada a gratidão à confiança destes estudiosos de nossa história.


         A arte da estátua francesa neoclássica, existente no Bairro Matosinhos é devida a Mathurin Moreau (Dijon, 1822 - Paris, 1912), um artista pleno, de traços acadêmicos, com muitas obras espalhadas no novo e velho mundo. A estátua tem a inscrição da fundição Val d'Osne, onde trabalhava o artista supracitado, na região metalúrgica do Alto Rio Marne, em Champagne-Ardenne, que no período oitocentista celebrizou-se na fabricação de peças primorosas: Sociètè anonyme des hauts-fourneaux et fonderies du Val d'Osne.



         Elementos decorativos evocam o ambiente natural dos faunos de cuja bocarra escancarada jorrava água: folhas paludícolas, juncos e uma cobra devorando rã, possível símbolo agrário da renovação da vida. Ainda mais, um elemento chama a atenção: uma flor, compatível com uma magnólia, símbolo da femininidade, inspiração de delicadeza e beleza.


         Mesmo em São João del-Rei uma outra peça da mesma fundição pode ser vista: seca, sem jorrar água, um chafariz-lampião com quatro carrancas de fauno, idênticas às de Matosinhos, enfeitam o centro do Largo do Carmo, em pleno centro histórico.



         Frazão me alertara que outras peças históricas existem em São João del-Rei com semelhança estilística aos monumentos da Val d’Osne na cidade, quais sejam, os dois lampiões que hoje ladeiam o jardim anexo à Prefeitura Municipal, na Avenida Hermillo Alves.



         Segundo seu comunicado pessoal foram para aí trazidos na gestão do prefeito Milton Viegas, do Largo da Câmara e da Estalagem (Praça Nossa Senhora de Fátima, Bairro Tijuco), este já em precário estado de conservação, demandando enchimentos em madeira para recomposição.

         O mesmo informante e estudioso supra, em sinal de amigável confiança, afirmou-me, baseado em fotografia de época, que a estátua “de Ceres” ou que outro nome tenha, esteve antes de 1915 no Largo do Rosário, bem onde, até hoje se encontra o busto do exímio compositor musicista Padre José Maria Xavier, aliás o primeiro da cidade, instalado justo nesse ano.


         É sabido que a estátua de Matosinhos esteve também por certo período fora do bairro, transferida para o Morro da Forca (Bairro Bonfim). Mas não foi localizada a data de seu translado.

         Peças literalmente idênticas à de Matosinhos estão no Rio de Janeiro (Passeio Público, entre a Lapa e a Cinelândia) e em algumas cidades espanholas, italianas e francesas, às vezes com quatro bacias de água.



         Em alguns lugares fixou-se com o nome de Ceres (a exemplo de Valença/BA)[1], noutros, como uma alegoria do verão, fazendo conjunto com outras estátuas representando as demais estações[2]. A estátua pode ser também interpretada como figurativa de um jovem, ou seja, com características masculinas[3]. Na Espanha, de iconografia idêntica à nossa é chamada “Segadora”[4] em Montoro e Vegadeo, além de Avilés (Astúrias), ressaltando o caráter feminino da estátua. Este nome é uma referência ao seu arco de ceifar trigo (segadeira).

         A elucidação concreta passará necessariamente pelo catálogo de peças da fundição. Afinal, mesclando características femininas e masculinas, segundo o ponto de vista, a estátua representa o quê de fato: a Deusa Ceres, o verão, uma segadora ou um jovem trabalhador rural, um rapaz camponês? As peças feitas nesta fôrma eram vendidas com que nome pela Val d’Osne? Aguardando as respostas a estas incógnitas, as pesquisas devem prosseguir.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias e montagens fotográficas: Iago C.S. Passarelli, 2012 e 2013.

Notas 

- Em 2023 o fontanário "Deusa Ceres" ou "Verão" passou por intervenção, com processos de higienização, remoção de oxidação, tratamento da camada pictórica, recomposição de pequenas partes perdidas ou danificadas. Em 2024 foi trasladada do centro da praça para a plataforma da Estação Ferroviária Chagas Dória, onde ora se encontra, em tese, mais protegida (por gradeamento da plataforma ferroviária). 

- Outras fontes sugeridas à consulta:
Chafariz com a Estátua da Deusa Ceres, Inventário de Patrimônio Cultural. São João del-Rei: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal, 2013. 

- Revisão: 06/06/2025. 


[3] SOBRINHO, Antônio Gaio. Seria mesmo a deusa Ceres? O Grande Matosinhos, n.98, maio/2012.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A Festa do Divino e o alimento

Em suas raízes judaicas a festa pentecostal se ligava às colheitas e, por conseguinte, a fartura do alimento. Este sentido passou aos festejos católicos do Espírito Santo ainda em Portugal, de onde o recebemos pela transmissão dos colonizadores ibéricos. Também é assim no Jubileu do Divino do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG. 

Congadeiros ao redor da mesa do café na Festa do Divino de São João del-Rei. 

De norte a sul do país a Festa do Divino possui dentre seus componentes uma profunda ligação com o alimento. O ato de servir almoço, lanches e café nos festejos do Espírito Santo é uma realidade comum em muitas festejos ao Paráclito Brasil afora e em Portugal. 

Refrigerantes matam a sede de congadeiros no jubileu. 

O momento da alimentação é também o instante de se confraternizar. Estando os congadeiros fora de forma sentem-se à vontade para o diálogo, congraçamento e troca de experiências. 

Moçambiqueiros de Divinópolis / MG 
em círculo ou deitados relaxam na cesta ... 

Movimento, alegria, colorido, musicalidade, 
algaravia de vozes se mesclam no salão do almoço. 

As muitas dificuldades de se por em prática tão grande desafio não desanimam contudo os festeiros, que trabalham o ano todo para concretizar todas as atividades previstas para o jubileu. Equipes se alternam para recolher os alimentos, preparar, servir, limpar o espaço após o almoço. Aos dançantes é preciso repor as energias dispendidas nos labores da manhã festiva, pois, logo mais, uma longa caminhada os espera: em cortejo irão buscar o Imperador para a cerimônia de coroação ... 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S.Passarelli, 2012. 

                                                                               Notas

- Veja também a apresentação de slides: ALIMENTAÇÃO.    
- Revisão: 14/06/2025.