quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Dois Causos de Matosinhos


(Ofereço com gratidão a José Cláudio Henriques)  [1]


           1- LUGAR ONDE O CACHORRO FALOU 

Dizem que fica na beira do Córrego da Água Limpa, limite do Grande Matosinhos. Logo se vê que foi um fato passado a muito tempo, quando suas águas ainda eram limpas... Lá pras bandas do lugar chamado Ouro Preto, onde os viajantes John Luccock[2] e Robert Walsh[3] comentaram no século XIX, de um velho dique – benfeitoria dos serviços de mineração de ouro – rompido pela força de uma enxurrada. Ali, na Fazenda Velha, diz que morou um rico senhor, dos mais miseráveis que já se viu.

      O ganancioso fazendeiro gostava de uma caçada e tinha seu cachorrinho fiel, que sofria de uma fome crônica, visível na sua magreza. Era pele e osso, como se diz.

      Certa feita o sovina caçou gordas codornas – seu prato predileto – e mandou uma escrava cozinheira prepará-las. Mãe Maria as fazia como ninguém. Seu tempero dava água na boca. Serviu-lhe. Se lambusava no comer, deliciando-se com o pitéu. E o pobre cão de caça, varado de fome, debaixo da mesa, babando, língua de fora, ofegante, olhos estatelados, rosnando de fome como que a implorar uma migalha, que o garrafinha recusava dar-lhe. Não fosse Mãe Maria que vez por outra às escondidas lhe dava algo, já teria morrido à míngua. Nem sequer os ossos lhe reservava. Guardava-os para torrar, moer e fazer farinha, que punha sobre o feijão. E o cachorro, vendo que nem sequer lhe restavam os ossos, arranjou voz e falou: “ô patrão... mas nem os ossos?”

      O homem desmaiou de susto. Acudiram. Ao acordar tratou fartamente do cão. Dizem que depois daquela lição inesperada melhorou de caráter, deixando de ser tão munheca para beneficiar os necessitados. E o local ficou conhecido como o lugar onde o cachorro falou.

Confluência do Cala-boca (direita) no Água Limpa (esquerda) 
em cujas proximidades teria se passado a estória acima narrada. 
São João del-Rei/MG.  

     2 - O CALA-BOCA

Este é o curioso nome de um ribeirão que também limita o Grande Matosinhos, desaguando no Água Limpa. Sua história ou estória está ligada a um triste assassinato. Foi nos idos da escravidão. Havia uma grande fazenda por lá, com muitos escravos e dentre eles uma mulata de uma beleza primorosa. O senhor tinha por ela uma espécie de capricho, um xodó, desejando-a e abusando sexualmente dela, à força e sob ameaças.

O caso se arrastava a bom tempo até que um dia a esposa do fazendeiro – a sinhá – descobriu a safadeza do marido, por meio da candonga de uma negra que não gostava da tal mulata. Revoltada, não pensou duas vezes. Logo que o marido saiu a cavalo para resolver um negócio, chamou um feitor – mal como o diabo – mandou que ele levasse a escrava para um grotão bem deserto e lá matasse a infeliz. E deu-lhe ordem de silêncio absoluto e que voltasse diante dela para informar o resultado. Assim foi feito.

A sinhá satisfeita e vingada diante do feitor determinou-lhe que calasse a boca sem jamais contar o fato. Do contrário, daria um jeito de eliminá-lo também.

Voltou o marido e já maquinando no caminho seus desejos secretos, foi logo à procura de satisfazer-se com a escrava, como de costume. Não a encontrou. Mandou capatazes e feitores procurá-la. Viram os urubus na capoeira e lá acharam seu corpo. Forçou explicações com os empregados e notando o nervosismo do feitor assassino, arrancou-lhe a confissão. Ele clamava que obedecera a uma ordem da patroa, que pedira para ele calar a boca sob pena de morte. Duplamente revoltado, contam, o sinhô deu uma surra na sinhá, ajuntou os seus pertences, pôs sobre um animal cargueiro e mandou devolver ao sogro. E como na briga de dois sempre lucra um terceiro, satanás foi quem ganhou... quatro almas: a do casal, a do feitor e a da delatora fofoqueira.

Placa na BR-265 nos arredores de São João del-Rei/MG. 

Pequeno Glossário

- Candonga: africanismo que significa fofoca, intriga, futrica, fuxico, mexerico.
- Capoeira: pequena mata. Floresta minúscula.
- Garrafinha: sovina, usurário, mesquinho. 
- Munheca: o mesmo que garrafinha. “Munheca de samambaia”.
- Pele e osso: expressão indicativa de extrema caquexia. Magreza.
- Urubu: abutre, ave catartídea que come cadáveres, animais mortos. Carniceiro.
- Varado: magérrimo ou apenas com muita fome.

Notas e Créditos

*Obs.: as notas de rodapé, as fotografias e o glossário não fazem parte da publicação original.
** Pesquisa, texto e fotos (2013): Ulisses Passarelli.
*** Informante: Aluísio dos Santos (São João del-Rei/MG), 1999.
**** Leia também:

ÁGUAS FLUVIAIS 



[1] - Por cuja benesse foi publicado em: O Grande Matosinhos, n.13, nov.2000, São João del-Rei, ASMAT, p.2.
[2] - LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes Meridionais do Brasil: 1808-1818. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975.
[3] - WALSH, Robert. Notícias do Brasil em 1829-1829. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985.

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